Editorial

Desde os 11 anos, quando o saudoso Tio Magno me apresentou formalmente ao rock'n roll, eu já ouvia falar da sua morte anunciada. Felizmente o tempo segue contradizendo os boatos e o rock vai sobrevivendo e se solidificando. Continua sendo uma linha mestra para o seu público segmentado, uma mina de ouro a quem o explora de forma inteligente e uma dor de cabeça para quem por ele é criticado. Insiste em ser campeão de rentabilidade em turnês, vendas e downloads. Não cansa de ditar ideologias, comportamentos e movimentos. Apesar de uma expansão cada vez maior de outros sons e tendências, segue solitário na capacidade de criar ideologias, movimentar multidões em prol de um objetivo e fazer a gente se divertir e pensar ao mesmo tempo. Este blog é a minha maneira de agradecer ao rock'n roll pelos arrepios, suspiros, lágrimas e alegrias a mim proporcionadas até hoje. Aqui podemos discutir o rock de uma forma geral, analisar e debater seus fatos e ícones, seja por lazer ou mesmo como exercício crítico. Interaja! Mande suas postagens e sugestões, passe o blog a quem gosta de rock. Toda participação é bem vinda!! Longa vida ao rock’n roll e bom divertimento a nós todos!!

11 outubro 2010

NIRVANA - SMELLS LIKE TEEN SPIRIT

Fonte foto:http://depoisdecrescer.blogspot.com

Você pode gostar ou não de grunge, preferir o Pearl Jam ao Nirvana, achar que “Man in the Box” (Alice in Chains) é a pedra fundamental do movimento iniciado em Seattle no final dos anos 80/início dos 90... Entretanto, considero indiscutível a importância de "Smells Like Teen Spirit" para o cenário roqueiro dos anos 90, e porque não dizer para uma geração inteira de músicos e fãs influenciados pelo Nirvana e em especial por essa canção. Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, chegou a dizer em uma entrevista que "nenhuma das bandas de Seattle estaria aqui se não tivesse existido o Kurt Cobain".

Na minha modesta opinião "SLTS" é uma das 20 maiores canções de rock de todos os tempos. Ao lado de “Alive”, do Pearl Jam, é o hino de toda a geração grunge. “SLTS” é curta e grossa, crua e primitiva... Entretanto ao mesmo tempo é sincera, ousada, revolucionária e absolutamente genial... Alguém da revista Rolling Stone fez a melhor descrição que vi sobre a música: "Smells Like Teen Spirit foi uma onda de choque de pureza amplificada, ela limpou os 80's para fora do mapa da noite para o dia".

Alguns chamam “SLTS” de power-punk, por causa dos riffs sujos. Não creio... A canção foi muito mais do que uma variação do punk. “SLTS” foi algo novo, uma riquíssima criação do rock'n roll, tal qual fizeram Jimi Hendrix ao distorcer a guitarra pela primeira vez ou Neil Peart ao mostrar que é possível agregar técnica à pegada na bateria. Através de “SLTS” o Nirvana arrombou as portas do mundo do rock e Kurt Cobain catapultou o movimento grunge para o topo das paradas.

"Smells Like Teen Spirit" abre o magnífico álbum “Nevermind”, de 1991, talvez um dos 10 maiores discos da história do rock, que vendeu 28 milhões de cópias até dezembro de 2009. Ela começou a ser composta em 1990, inicialmente apenas por Kurt. Reza a lenda que Cobain apesentou o riff e o refrão ao batera David Grohl e ao baixista Kris Novocelic, e que a canção foi aperfeiçoada pelos três, juntamente com o produtor de Nevermind, Butch Vig. Se observarmos os créditos do próprio álbum, todos os membros da banda são descritos como co-compositores.

SLTS” foi concebida a partir da influência do Pixies sobre o Nirvana (especialmente sobre Kurt). A canção “U-mess”, dos Pixies, é um bom indicativo disso, e a própria situação foi reconhecida pela banda. “Nós usamos o sentido de dinâmica deles, leve e calmo e depois alto e pesado”, disse Kurt em 1994. Cobain sempre deixou claro que fez o riff principal de “SLTS” com base em algumas canções que lhe chamavam a atenção, como “More Than a Feeling” (Boston) “Godzila” (Blue Öyster Cult) e “Louie, Louie” (verão do Kingsmen, considerada a primeira música estilo garagem da história do rock).

Em relação à letra, tudo decorreu de uma expressão habitual entre os jovens de Seattle quando o destino era uma festa: “Aqui estamos agora: entretenha-nos”. Apesar de não ser o verso inicial, foi o gancho que Kurt utilizou para abordar o tema principal da letra: o ataque à apatia da sua própria geração, a conformidade massificada dos jovens e adolescentes americanos. Cobain pregava que se sentia no dever de descrever o que sentia à sua volta, sobre a sua geração e das pessoas da sua idade.

A letra não se deteve apenas no caráter revolucionário... Com muita habilidade, Kurt usou o cinismo e sua personalidade depressiva para criticar sua ex-namorada Tobi Vail, para demonstrar sua satisfação com o momento vivido pela banda (ainda longe da fama máxima) e para abordar seu vício em a heroína. Além disso, Cobain brincou com a idéia de uma verdadeira revolução juventudista, abraçando a causa mas caçoando da possibilidade dela realmente acontecer. A letra, que parece confusa se avaliada sem profundidade, torna-se simplesmente genial quando observada dentro de um contexto amplo.

A escolha do título também é bastante peculiar... Surgiu quando uma amiga de Cobain, Kathleen Hanna, escreveu a expressão “Kurt Smells Like Teen Spirit” na parede do apartamento dele, após uma noite de bebedeira e discussões sobre os jovens de Seattle. Kurt viu na frase um conteúdo revolucionário e acabou utilizando-a na canção, que já tinha esse contexto. Meses após o lançamento de “Nevermind” é que a verdadeira intenção de Kathleen veio à tona: ela apenas queria dizer que Cobain tinha o cheiro do desodorante Teen Spirit, amplamente consumido na época.

Outra situação que chama a atenção em relação à “SLTS” é como ela se tornou tão influente em tão pouco tempo.

Butch Vig, produtor de “Nevermind”, já previa que a canção marcaria para sempre na primeira audição de estúdio: "Quando ouvi a banda executar SLTS pela primeira vez pedi que eles a tocassem de novo pois não conseguia pensar em nada que traduzisse a excelência da canção (…) Uma semana após a gravação sugeri que ela deveria ser a principal faixa do disco.”

A banda também teve essa percepção de forma quase imediata. Nos primeiros shows após o lançamento de Nevermind, Kurt sentiu que eles haviam criado algo poderoso: “Smells Like Teen Spirit está no ar... As pessoas estão indo aos nossos shows pela força de uma música. É legal, e podemos lidar com isso”, reconheceu ele em uma entrevista em 1991.

Muitos indicavam que a canção a ser trabalhada naquele álbum deveria ser “Come as You Are” (mais suave), mas a reação do público à “SLTS” acabou virando o jogo. Segundo a gravadora Geffen, o público ouvia a música nas rádios alternativas e estudantis e corria às lojas em busca do disco. Isso fez com que, de uma hora para outra, o Nirvana deixasse de ser rotulado como rock alternativo para entrar na galeria das maiores bandas de todos os tempos. Em janeiro de 1992, cerca de 6 meses após seu lançamento, “Nevermind” superou “Dangerous” (Michael Jackson) no topo da Billboard e foi o primeiro álbum “Lado B” a assumir o comando da parada norte-americana.

SLTS” também recebeu da crítica o devido reconhecimento. A maior parte da mídia especializada que já elencou algum ranking de canções (Rolling Stone, MTV, VH1, etc.) coloca a música entre as 10 ou 20 maiores da história do rock. Curiosamente, o sucesso estrondoso de “SLTS” acabou incomodando a banda, que chegou a excluí-la do set list em alguns concertos. Todavia, as queixas dos fãs fizeram com que o Nirvana reincorporasse a canção ao seu repertório a partir de 1993.

A música já teria qualidade suficiente para chegar onde chegou, mas o vídeo de “SLTS”, lançado na época áurea da MTV, deu um empurrãozinho extra para rabiscar a estrelinha ao lado da nota 10.

O clip de "Smells Like Teen Spirit" foi baseado em duas obras: o filme “Over the Edge”, de Jonathan Kaplan (1979), e o clip de “Rock'n Roll High School”, dos Ramones. A idéia foi recriar o ambiente de um concerto de rock em um ginásio escuro e empoeirado de uma escola secundária americana, obviamente finalizando em confusão e quebra-quebra.

A banda, em especial Kurt, quis dar ao vídeo um caráter absolutamente punk-caótico... As próprias cheerleaders do clip (que eram strippers) usam vestidos negros com o símbolo da anarquia. Dentro dessa filosofia é que se idealizou a reunião de adolescentes com aspecto abatido, modificando radicalmente o comportamento ao longo da música e detonando todo o equipamento da banda no final (junto com Kurt, claro...). O fato das filmagens terem durado mais de 8 horas, gerando impaciência dos figurantes, e o incentivo de Cobain à quebradeira contribuíram para que a destruição dos instrumentos fosse ainda mais irada.

Samuel Bayer (diretor da refilmagem de “A Hora do Pesadelo”), foi o produtor do clip, tendo recebido de Kurt a incumbência de trabalhá-lo de uma forma absolutamente não-comercial. Bayer, em recente entrevista, disse que “ao contrário dos artistas com quem viria trabalhar depois do Nirvana, Cobain não se preocupava com a vaidade, mas que o vídeo tivesse algo que fosse realmente sobre o que eles eram."

“Eu espero que as bandas que venham após a gente não nos copiem, apenas captem a nossa sinceridade.” (Kurt Cobain, em entrevista para a MTV Brasil, em 1993)

Abaixo, então, o lendário clip de “Smells Like Teen Spirit”. Levante e o volume, sacuda a cabeça e deixe um pouco desse “teen spirit” fluir... Abraços a todos!

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