Editorial

Desde os 11 anos, quando o saudoso Tio Magno me apresentou formalmente ao rock'n roll, eu já ouvia falar da sua morte anunciada. Felizmente o tempo segue contradizendo os boatos e o rock vai sobrevivendo e se solidificando. Continua sendo uma linha mestra para o seu público segmentado, uma mina de ouro a quem o explora de forma inteligente e uma dor de cabeça para quem por ele é criticado. Insiste em ser campeão de rentabilidade em turnês, vendas e downloads. Não cansa de ditar ideologias, comportamentos e movimentos. Apesar de uma expansão cada vez maior de outros sons e tendências, segue solitário na capacidade de criar ideologias, movimentar multidões em prol de um objetivo e fazer a gente se divertir e pensar ao mesmo tempo. Este blog é a minha maneira de agradecer ao rock'n roll pelos arrepios, suspiros, lágrimas e alegrias a mim proporcionadas até hoje. Aqui podemos discutir o rock de uma forma geral, analisar e debater seus fatos e ícones, seja por lazer ou mesmo como exercício crítico. Interaja! Mande suas postagens e sugestões, passe o blog a quem gosta de rock. Toda participação é bem vinda!! Longa vida ao rock’n roll e bom divertimento a nós todos!!

04 maio 2011

ERIC CLAPTON – LAYLA – A PERFEIÇÃO DO DISCO E DA CANÇÃO

Fonte foto: http://1.bp.blogspot.com/


E Ele estará entre nós novamente... Eric Clapton, talvez o maior guitarrista de rock/blues de todos os tempos, fará três apresentações no Brasil em outubro (Porto Alegre, Rio e São Paulo). Mesmo carregando consigo as conseqüêncas de seus excessos e já contando 66 anos, “Slowhand” está excelente forma. O show, para os rockers e blueseiros de carteirinha, é absolutamente imperdível.

Falar de Clapton é pensar em blues, no rock, na virtuose, na técnica, nos solos e riffs clássicos, e principalmente em “Layla”. Não há como afastar do pensamento o seu masterpiece, sua assinatura definitiva. A canção consegue resumir tudo o que Clapton construiu em quase 50 anos de carreira e é a que mais empolga seu público.

“Layla” é uma das músicas prediletas de Clapton (a preferida mesmo é “Something”). Ao falar sobre ela, em uma entrevista, Eric descreveu: “Eu sou incrivelmente orgulhoso dessa canção. Ela ainda me nocauteia quando a toco. Eu amo ouvir essa canção, é como se não fosse minha, como se eu estivesse ouvindo alguma banda que eu realmente gosto.”.

A canção faz parte do sensacional e indispensável álbum “Layla and Other Assorted Love Songs”, gravado em seis semanas e lançado em dezembro de 1970 pela banda Derek and The Dominos. Esse disco, top 20 da história do rock e top 5 da discografia blues/rock, carrega clássicas como “Little Wing”, “Key To The Highway”, e “Bell Bottom Blues”, só pra citar algumas.

Em 1970, após ter deixado a banda “Delaney & Bonnie” e iniciado sua carreira solo, Clapton partiu para um novo projeto: um álbum com essência mais roqueira, diferente e definitivo, até mesmo conceitual, por assim dizer. Cuidadoso, Clapton montou uma banda espetacular para gravar a obra prima. Recrutou Duane Allman (Allman Brothers Band), o mago do “slide guitar”, e dividiu com ele a responsabilidade pela maior parte do trabalho. No mais, completaram o line up os ótimos Jim Gordon (batera), Bob Whitlock (teclados) e Carl Radle (baixo), ex-companheiros de Clapton do Delaney.

Os quatro americanos trouxeram as desejadas influências roqueiras ao álbum, em especial a sulista yankee (Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd...). Ouvindo o disco, percebemos o rock, o blues, o soul e aquela essência tipicamente estradeira, especialidade de Duane. Allman colocou um pouco de tempero no blues tecnicamente perfeito de Clapton, e a mescla disso foi a química mágica do disco.

Falando em química, o disco também foi calcado em drogas nos momentos criativos. Eric, o líder da matilha, vivia a heroína e o álcool intensamente na época. O tecladista Bobby Whitlock, ao comentar o assunto, fez um resumo sincero e matou a questão: ”As sessões de gravação tinham um menu psicotrópico: cocaína, heroína e Johnnie Walker. O resultado? Uma obra prima. Clapton oscilava à beira do caos, mas nunca deixava de ser genial.”.

“Layla and Other Assorted Love Songs” foi produzido por Tom Dowd, um mago que já havia trabalhado com o Cream e a Allman Brothers Band. Foi ele quem intermediou a vinda de Duane para o “Derek and The Dominoes”, certo de que algo brilhante surgiria do encontro dos dois monstros da guitarra.

Ao lembrar-se da incrível sincronia e entrosamento entre Clapton e Duane, o principal diferencial do disco, Dowd disse: “Deveria haver algum tipo de telepatia acontecendo entre eles, pois eu nunca havia visto inspiração espontânea acontecendo naquele nível. Um deles tocava uma nota e o outro reagia instantaneamente. Nunca um deles pediu ao outro para tocar de novo. Eram como se duas mãos coubessem em uma única luva.”.

Tom acertou em cheio... Ao permitir que as gravações fossem feitas em “jam takes” de várias horas e depois aperfeiçoadas, Dowd conseguiu extrair o máximo da criatividade dos caras quando estavam doidos e aproveitou a excelência musical deles quando estavam sóbrios. Ao ouvir o disco pronto, Tom ficou estupefato com o resultado e disse que aquele era o álbum mais sensacional dos últimos 10 anos.

Incrivelmente o álbum teve dificuldades em tornar-se um best seller, só chegando a um bom posicionamento nas paradas 18 meses após o lançamento. As explicações mais plausíveis são que a banda “Derek And The Dominoes” não era conhecida pelo público (o nome de Clapton estava só na contracapa) e que “Layla”, seu carro chefe, era grande demais para tocar nas rádios. Uma maior exposição do disco só aconteceu com a vinculação do álbum à Eric e com a execução de “Bell Bottom Blues” nas emissoras como música de trabalho.

Infelizmente esse disco foi o único do lendário quinteto. A utilização massacrante de drogas por todos os membros perturbou o que seria o início da gravação do segundo disco deles. Alguns desses registros estão presentes na discografia de Eric, mas a obscuridade é clara. Em 1971 ainda houve o falecimento de Duane, e qualquer tentativa de reestruturar aquela brilhante banda foi-se pelo ralo.

Voltando ao disco, todo ele é uma declaração de amor de Clapton à Pattie Boyd, então esposa de seu grande amigo George Harrison. Várias de suas canções (“Layla”, “Bell Bottom Blues”, “Have You Ever Loved a Woman” e “I Am Yours”) encaixam-se perfeitamente no contexto em que viviam e nas circunstâncias adversas para que o amor deles se consolidasse.

Falando especificamente de “Layla”, ela é a trilha sonora do mais famoso triângulo amoroso da história do rock. Sua letra é um conto de amor e obsessão dolorido e amargurado, o relato de uma paixão arrebatadora por alguém inicialmente inacessível.

O título da canção veio de um poema persa imortalizado pelo azerbaijano Nezami Ganjavi, chamado “Leyil and Majnun”. Os versos, datados do século XII, contam a história da princesa Leyil, cujo casamento arranjado fazia sofrer o jovem Majnun, que a amava desde a infância. Um final feliz era impossível, dadas as diferenças entre os clãs familiares, e isso acaba levando Majnun à loucura. Qualquer semelhança não é mera coincidência...

Clapton, apesar de vender a imagem de uma rocha indefectível e inabalável, mostra em “Layla” um lado humano, devotado e apaixonado como jamais fizera ou fez. Seria mais “Clapton” fazer um slow blues choroso e introspectivo sobre o amor quase platônico por Pattie, mas ele preferiu a exposição, o desabafo do fundo da alma, uma súplica piedosa por retribuição.

Eric começou a interessar-se por Boyd em 1969. Fico pensando em quanto ela era irresistível e acabo concluindo que o grau era máximo. Afinal, nenhuma musa inspiradora conseguiu três canções de tamanho quilate como declarações de amor: “Layla” e Wonderful Tonight”, por Clapton, e “Something”, lendária canção dos Beatles composta por George Harrison.

Em 1970 Clapton tomou coragem e declarou seu amor por Pattie em uma festa, tocando “Layla” para ela. Mais cedo, na mesma balada, Eric teria procurado George e aberto o coração para seu amigo. Pattie resistiu a Eric por mais algum tempo, apesar da persistência inacreditável do Slowhand.

Pattie descreveu em seu livro, chamado “Wonderful Tonight”, como foi tocada pela música: “Eu fiquei impressionada e tocada com a canção. Era tão apaixonada e devastadoramente romântica; dolorosa e linda. Eu não pude resistir por muito tempo...”.

Leitoras mulheres... Imaginem um homem apaixonado, com um violão, cantando isso para vocês: “O que você fará quando ficar sozinha e sem ninguém esperando ao seu lado? Você tem fugido e se escondido há tanto tempo, você sabe que isso é só o seu orgulho bobo. // Layla, você me pôs de joelhos, Layla, implorando querida, por favor, Layla. Querida, você não acalmará minha mente preocupada? // Tentei te dar consolo quando seu velho homem te abandonou. Como um tolo me apaixonei por você, você virou meu mundo de cabeça pra baixo // Layla, você me pôs de joelhos, Layla, implorando querida, por favor, Layla. Querida, você não acalmará minha mente preocupada? // Vamos conduzir a situação da melhor forma antes que eu acabe indo para a insanidade. Por favor não diga que não acharemos uma maneira e não me diga que o meu amor é em vão...”. De quanto tempo seria a sua resistência?

Em meio à insistência de Clapton, George mostrava-se um tanto despreocupado com a profundidade das coisas. Sua amizade com Eric e o número de vezes que este o ajudou profissionalmente pesavam para que sua reação não fosse hostil. Da mesma forma, seu amor por Pattie já não era mais tão intenso. Provavelmente pensando em tudo isso George abriu caminho para Clapton “roubar-lhe” a esposa.

Em 1974 Pattie divorciou-se de George, mas a saga dos vícios de Eric, naquele momento a heroína, os manteve afastados. Apenas cinco anos depois, quando Clapton voltou para o álcool e ficou um pouco menos maluco, os dois se casaram em meio à famosa tour de Eric naquele ano (do sensacional disco ao vivo “Just One Night”).

Apesar de todo o contexto ser realmente pouco convencional, George e Clapton continuaram amigos. Continuaram a frequentar a casa um do outro e tocaram juntos muitas vezes depois daquilo, inclusive no casamento de Eric e Pattie. Ambos brincavam com a situação dizendo-se “husbands in law”, como se fossem parentes ligados por Boyd.

A separação do casal aconteceu nove anos depois, segundo Pattie em razão dos problemas de Clapton com o álcool. Em recente entrevista, Eric mencionou ter levado um grande choque com a manchete de capa de um jornal britânico que divulgava o livro autobiográfico de Boyd: “O alcoolismo de Eric Clapton destruiu meu casamento”.

Musicalmente falando, “Layla” foi idealizada como uma balada puxada para o blues. Passou a ser uma canção roqueira com a co-participação de Duane e alcançou um caráter híbrido com o piano do batera Jim Gordon.

Apesar do instrumento não ser sua praia, foi dele a criação do movimento maravilhoso que dá vida à segunda parte da canção. Reza a lenda que em uma madrugada aleatória Clapton voltou ao estúdio e encontrou Jim ao piano, tocando o que viria ser a metade final de “Layla”.

Se as notas de Jim conseguiram fechar a canção com chave de ouro, o arrepiante e incendiário riff de entrada é o cartão de visitas de “Layla”. A inspiração para o começo veio desde um blues de Albert King, ídolo de Clapton, chamado “As The Years Go Passing By” (1967). Em entrevista concedida há mais de 20 anos, Eric mencionou ter “seguido a linha de notas desse slow blues e acelerado...”

Ao longo do som, temos um dos mais inspirados solos de todos os tempos, a perfeita união de técnica e feeling. Clapton e Duane praticamente duelam durante toda a canção, mas remam juntos para torná-la inesquecível. Quem foi mesmo que disse que solos roqueiros precisam de velocidade e que a guitarra não é a rainha dos instrumentos musicais?

De todas as versões de Layla que já assisti, a do vídeo abaixo é a menos técnica, mas certamente a mais rica, rápida e aditivada. Em 21 de setembro de 1983, em um concerto chamado ARMS Charity Concert, Clapton dividiu o palco com Jimmy Page e Jeff Beck. A “Santíssima Trindade da Guitarra” como muitos apelidaram, reuniu-se 15 anos depois e esmigalhou em “Stairway to Heaven”, “Tulsa Time” e “Layla”. É hilário ver o pessoal pedindo a Page que toque mais devagar...

Ainda falando de vídeos de “Layla”, preciso indicar o vídeo onde Clapton reinventou-a, em seu “Unplugged” (1992). Acompanhado de feras como Nathan East, Ray Cooper e Andy Fairweather Low, Eric cortou a parte do piano e criou um arranjo sensacional. A música ficou mais lenta, swingada e blueseira, típica dos bares de New Orleans. Simplesmente sensacional.

Acústica ou elétrica, rápida ou veloz, em 1970 ou em 2011. Não importa quando, como ou por que. “Layla” despreza tempo, ritmo ou intensidade e marca nossos corações a cada audição. Definitivamente sua perfeição a fez imortal...

Abraços a todos!

4 comentários:

ni disse...

Ficar parada olhando para o monitor mais de 15 minutos pensando com qual palavra começar um simples comentário, pois é, Layla causa isso. Ela é tão inacreditável, perfeita que acaba faltando palavras.
Sobre a pergunta, eu ñ resistiria nem 5 segundos, fato!
Lendo o blog, ele aumentou mais ainda a vontade do show.
Esse post na minha humilde opinião está sendo um dos melhores que vc ja fez, ótimas palavras e vc escolheu o melhor momento para escreve-lo. Parabéns!

Rangel disse...

Eric e Mark cantando layla. Sem palavras!

Max disse...

Grande Rangel! Cara, essa versão que você citou é outra maravilhosa. Verdade... Há ainda uma diferente do Clapton com Dr. John no piano, dá uma furungada no youtube. Obrigado pela postagem e pelo acesso! Um grande abraço a você e aos brothers!!!
Max.

Max disse...

Ni!
Obrigado pelo seu post e por suas palavras novamente... Como és uma pessoa muito crítica, fico bastante feliz. Layla é realmente uma música tocante, feita com coração e alma. Por isso que você e Pattie não resistiram/resistiriam... rsrsrs... No show ele se concentra ao extremo quando vai tocar essa canção. É de arrepiar, vale a pena!
Abraço!!!